Marty Supreme revela a história real e improvável que inspirou o novo filme com Timothée Chalamet

O cinema adora histórias de superação esportiva, mas Marty Supreme segue um caminho bem diferente. Dirigido por Josh Safdie e estrelado por Timothée Chalamet, o filme da A24 parte do universo do tênis de mesa para contar uma trajetória marcada por apostas, contrabando, provocações e sobrevivência urbana. Por trás da estética estilizada, existe uma base real tão absurda quanto fascinante.

O personagem Marty Mauser, vivido por Chalamet, é inspirado em Marty Reisman, uma das figuras mais excêntricas da história do esporte. Campeão nacional, apostador compulsivo e personagem frequente do submundo nova-iorquino, Reisman transformou o pingue-pongue em meio de vida, espetáculo e arma psicológica.

Quem foi Marty Reisman, a inspiração de Marty Supreme

Nascido em Nova York, Marty Reisman cresceu jogando tênis de mesa em parques, bares e porões de restaurantes, quase sempre valendo dinheiro. Ainda adolescente, trocava a escola por partidas clandestinas, desenvolvendo uma técnica refinada e uma habilidade rara de desestabilizar adversários com provocações constantes.

Apelidado de “The Needle”, Reisman acreditava que o jogo não era apenas físico. Para ele, silêncio significava fraqueza. Em sua autobiografia The Money Player, publicada em 1974, resumiu sua filosofia de forma direta:

“Jogadores de tênis de mesa precisam sobreviver pela própria inteligência. Os melhores eram apostadores ou contrabandistas.”

Apostador, trambiqueiro e estrategista

Antes de se tornar atleta reconhecido, Reisman ficou famoso por aplicar golpes em partidas apostadas. Seu método era simples: perdia de propósito no início, incentivava apostas mais altas e, quando o dinheiro estava garantido, virava o jogo com facilidade.

Para atrair público e aumentar os valores apostados, aceitava desafios inusitados. Jogava sentado, vendado ou usando objetos improvisados como raquete. Em exibições públicas, derrotava adversários com tampas de lixo, sapatos e até peças de xadrez, transformando o esporte em espetáculo.

Do submundo aos títulos oficiais

O talento de Reisman acabou chamando atenção fora do circuito clandestino. Aos 16 anos, disputou o Campeonato Mundial de 1948, em Londres. A viagem também marcou o início de sua relação com o contrabando, levando meias de nylon para a Europa e retornando aos Estados Unidos com itens de luxo.

Nos anos seguintes, acumulou títulos nacionais em simples e duplas, além de se apresentar como atração em eventos dos Harlem Globetrotters, usando panelas e frigideiras como raquetes. Mesmo consagrado, nunca abandonou o gosto pelo risco e pelo dinheiro fácil.

A derrota que mudou o esporte

Em 1952, Reisman enfrentou um divisor de águas. No Campeonato Mundial realizado na Índia, foi derrotado pelo japonês Hiroji Satoh, que utilizava uma inovação técnica: a raquete com borracha esponjosa. A novidade revolucionou o tênis de mesa.

Reisman se recusou a aderir à tecnologia, considerando-a um atalho injusto. Determinado a provar seu valor, organizou um confronto público contra Satoh no Japão. Diante de milhares de espectadores, venceu usando apenas madeira e uma camada tradicional de borracha, consolidando um dos momentos mais lendários de sua carreira.

O que o filme inventa e o que vem da vida real

Marty Supreme toma liberdades criativas ao introduzir personagens e relacionamentos que não possuem equivalentes diretos na biografia de Reisman, como a atriz decadente interpretada por Gwyneth Paltrow e o empresário vivido por Kevin O’Leary. Ainda assim, o ambiente retratado é fiel ao universo frequentado pelo jogador.

Os clubes de tênis de mesa da época reuniam figuras improváveis, incluindo artistas e intelectuais como Dustin Hoffman, Kurt Vonnegut Jr., Bobby Fischer e Walter Matthau.

Por que Josh Safdie escolheu essa história

O interesse de Josh Safdie pelo personagem surgiu a partir de vivências pessoais no Lower East Side e se consolidou após a leitura da autobiografia de Reisman, apresentada pelo acaso. Ao perceber as semelhanças físicas e de energia entre o atleta e Timothée Chalamet, o cineasta encontrou o protagonista ideal.

Assim como em Joias Brutas, Safdie se interessa por personagens que vivem no limite, movidos por ambição, ego e decisões erradas. Reisman não era um herói clássico, mas alguém que transformou talento e fome em sobrevivência.

Marty Supreme mostra que, por mais exagerada que pareça, a história real por trás do filme é tão improvável quanto qualquer roteiro de ficção.




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